sábado, 15 de agosto de 2009

Eco

Já era tarde, mais tarde do que deveria ser, estava atrasado. Relógio quebrado.
“Nunca jogue fora um relógio quebrado dizia minha avó.”
O tempo passa, os segundos não.
“O trem já deve estar prestes a partir.”
Velocidade máxima permitida: bem abaixo da velocidade do tempo quando se está com pressa.
Sinal verde.
“Nuvem cuspida dos escapamentos.”
Sinal amarelo.
“Ninguém se importa com o sinal amarelo.”
Sinal vermelho.
“A buzina poderia ser um freio.”
Eco.
Já era tarde, mais do que deveria ser, estava atrasado. Trem quebrado.

Viagem de negócios

_E então, como foi de viagem?
_Foi legal, me diverti, o mundo é bonito.
_É, já vi em fotos... Como é o mundo?
_Cheio de estradas.
_Estradas?
_As estradas podem nos levar a qualquer lugar, mas se você não deseja ir a um lugar qualquer, saia delas.
_Você se perdeu alguma vez?
_Enquanto estava seguindo as estradas sim, malditas placas, mas depois acabei me encontrando.
_Que lugares você visitou? Tem alguma foto?
_Não, paisagens não são muito fotogênicas... Eu voei, alto.
_E o que viu?
_O céu estava azul, mas o mundo estava nublado. Não vi nada. E você, o que fez?
_Tirei fotos.
_Do quê?
_De outras fotos. Paisagens. Fotos são fotogênicas.
_E se viajássemos? Juntos.
_Mas você acabou de chegar. Nem desfez as malas.
_Nem desfiz as malas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Pobre ratoeira

Era dia, como ontem, mas outro, um rato (igual a qualquer outro, mas diferente daquele do dicionário) estava à procura de uma ratoeira, comida na certa.
Havia um gato, sim, um gato, não parecia muito feliz, era velho, um velho gato. Da mesma forma que seu ego, era cinza, e dessa forma via o mundo, cinza, não havia preto nem branco... Cinza. Esperava renascer.
O rato não conhecia a felicidade, era feliz, tinha medo, "pobres ratoeiras", pensava.
"Pobre mundo" pensava o gato, "por que tão cinza?"
Havia uma cama. Havia uma pessoa deitada, no chão, ao lado da cama. Tentava dormir, mas não conseguia, então pensava, longe, pensava em outras pessoas, pensava na vida, pensava em alguém. Não era pensada. Era feliz, em quanto pensava.
E o mundo? Sempre a girar. Quantas vezes por dia penso no mundo?
O rato encontrou uma ratoeira, bela ratoeira, divina, talvez tivesse sido usada no Olimpo.
Chovia.
"E o mundo tem goteiras" pensou o gato.
Quantas vezes por dia penso em dinheiro? Tenho contas a pagar, não sei contar. Conto histórias.
"Pobre rato" disse a ratoeira a si mesma, "está faminto, também estou".
O rato morreu com o queijo na boca, de fome.
"Todo mundo fala: gato gosta de leite, gato não gosta de água, gato isso, gato aquilo. Estou abdicando. Todo mundo tem o direito de não ser um gato."
A pessoa se levantou, estava decidida a fazer algo grande, mudar o mundo, cerrou as mãos, deitou e dormiu.
Andando pelo quarto, o gato se deparou com o rato, a ratoeira e o queijo.
Estranho, o queijo não era cinza, e tirando-o da boca do rato, falou.
_ Pobre ratoeira.